O que não lhe contaram sobre a corrida descalça


Recentemente a corrida descalça tem recebido alguma atenção da mídia especializada. Sendo assim, talvez você já tenha visto ou lido algo a respeito. Acontece que muitos destes textos trazem a opinião de “especialistas” que NUNCA correram descalços! Pode ser que o que você irá ler a seguir o deixe chocado. Pode também contrapor tudo o que você já viu sobre corrida descalça. O motivo é que sou um corredor descalço com 7 anos e meio de experiência na modalidade. Descalço para mim significa SEM CALÇADOS. Parece óbvio mas, como nos últimos tempos surgiram vários calçados “descalços” (tênis, sapatilhas, sandálias, …), quero deixar isto bem definido.

Primeiramente eu lhe faria a pergunta: “Qual é seu objetivo em correr descalço?”

Se você é um daqueles corredores veteranos, acostumado a treinar com dores, e ouviu dizer que correr descalço (ou com calçados minimalistas) é uma panacéia para te livrar das lesões da noite para o dia, tenha certeza que lhe enganaram! Correr descalço tem pouco a ver com correr mais rápido, mais competitivamente, sem prestar atenção a seu corpo, passando por cima da dor sem se preocupar com a corrida de amanhã. Correr descalço tem muito haver com escutar seu próprio organismo, ter uma consciência corporal plena, saber que ao final do treino você estará melhor para o treino de amanhã e para continuar correndo por toda a vida.

Entretanto correr descalço é difícil. Infelizmente, em nossa sociedade imediatista, as pessoas tomam ruim como sinônimo de difícil. Elas desejam resultados rápidos, não tem paciência para trilhar o caminho, querem encontrar atalhos. A corrida descalça exige paciência e determinação. “Mas a corrida descalça não é a forma natural de correr? Onde está a dificuldade?” – você perguntará.

Para começar, vivemos em uma sociedade que aprisiona os pés das crianças desde os primeiros meses de vida. Já ouvi muitos dizerem: “tenho um pé de moça por isto não posso correr descalço!” Ter um pé de moça, seja você do sexo masculino ou feminino, significa que seu pé desenvolveu uma sensibilidade exagerada! E como poderia ser diferente? Ele quase nunca vê a luz do sol, ele nunca sentiu texturas diferentes, ele só conhece a sensação de viver num lugar escuro, úmido e repleto de fungos e bactérias: o interior de seus calçados. Ele está supersensível em busca de novas sensações!

“Então basta dessensibilizá-lo, no popular  engrossar as solas, para eu correr descalço” – dirá você. Outro engano. A menos você tenha passado toda a infância e adolescência praticamente descalço, não existe um caminho curto para a corrida descalça. Se migrar para a corrida descalça fosse fácil e rápido acho que veríamos muito mais corredores assim nas provas. Evoluir nesta modalidade é um processo lento e gradual.

Você rebaterá: “Mas basta usar um calçado minimalista e fazer a transição para a corrida descalça!” Digo que esqueça os que os vendedores lhe contaram. É exatamente o contrário. A corrida descalça é que representa a transição dos tênis para os minimalistas. Nosso corpo possui terminações nervosas para tato, pressão, temperatura, dor, propriocepção e outras sensações. As existentes em nossos pés são importantes para nos ensinar como correr de uma forma mais suave e que minimize dores e lesões. Anular estas terminações nervosas, com calçados ou medicamentos (drogas), é emudecer o melhor treinador que possuímos em nós mesmos! Além disto, não é só a pele que está supersensível. A corrida descalça modifica a forma de correr. Serão exercitados músculos, tendões, ligamentos e ossos de forma diferente. Estas estruturas precisam de bastante tempo para se adaptarem. E, quanto aos calçados, lembre-se que correr de uma forma melhor não pode ser comprado, mas pode ser treinado. Ninguém não se torna um melhor pianista ao comprar o melhor piano. Seus pés deveriam ter aprendido a correr faz anos, lá na sua infância, infelizmente foram privados disto. É preciso “começar do princípio”. Fique descalço para (re)aprender a forma de correr, treine assim para correr melhor, só depois use o “instrumento” calçado minimalista em seu benefício e quando julgar necessário.

Novamente você poderá contestar: “Você fala em minimizar a dor… correr descalço é muito dolorido, vocês são verdadeiros masoquistas!” Bem, parei de correr usando tênis devido as intermináveis dores na canela, mudei para a corrida descalça pois esta é sem dor! Seus treinadores (as terminações nervosas) lhe ensinam a correr com mais delicadeza ou lhe dizem quando é hora de parar ou quando o piso é muito agressivo para sua habilidade atual. Você tem que respeitá-los! A primeira medida é não bloquear a função deles com calçados. A segunda é não bloqueá-los com medicamentos para tirar a dor. Minha filosofia é: se dói está errado ou você está exagerando. Assim, corro descalço porque não dói!

“Não dói? Kkkk, as ruas estão cheias de pregos e cacos de vidro. Pisa em um para você ver!” – você retrucará. Este é um temor exagerado por parte dos corredores calçados. Nas ruas, os cacos e os pregos não são tão comuns como na imaginação das pessoas. Os pregos também tem o costume de ficarem deitados e não em pé. Mas a visão é o mais importante, basta desviar ao se enxergar algo perigoso no chão! Com o tempo a coordenação visão-pés também fica mais aguçada.

Vou encerrar este texto por aqui. Não quis falar sobre as “polêmicas pesquisas”, sobre se descalço é mais ou menos eficiente, sobre a mecânica diferente e coisas do gênero. Estes assuntos são recorrentemente explorados pela mídia. Quis apenas mostrar que correr descalço envolve encarar o esporte “corrida” por uma nova filosofia. Para tirar proveito dela é necessário paciência para evoluir paulatinamente. Calculo em torno de um ano o tempo para se sentir bem nesta (nova) modalidade.

Se tiver mais interesse no tema e/ou quiser saber sobre assuntos que não falei, sugiro assistir o vídeo abaixo e acessar o site Pés Descalços (pes-descalcos.org/run), onde podem ser encontrados outros vídeos, links e informações.

A Segunda Clínica de Corrida Descalça de Belo Horizonte

Artigo enviado por Leonardo Liporati, praticante da corrida descalça e um dos criadores do site Pés Descalços.

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