As voltas da vida de um eterno aprendiz


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Ainda não havia amanhecido quando acordei, tomei um café reforçado e saí logo disposta a cumprir até então o meu maior e inédito desafio físico: correr 18,6 km. Cheguei cedo, com o suporte do meu “staff particular” (meu marido) e consegui um lugar bem na frente do pelotão geral da XV Volta Internacional da Pampulha. Espremida entre os corredores que esperavam a largada, cantarolei o refrão de umas das minhas músicas preferidas: Eterno Aprendiz. Gonzaguinha foi a inspiração de todo o meu percurso, mesmo ouvindo música eletrônica, no fone de ouvido, para estimular minha corrida.

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O Que É O Que É by Gonzaguinha on Grooveshark

A cada quilômetro percorrido, parecia que eu ganhava mais força. Nada doía, estava anestesiada, inebriada de emoção. Admirava a beleza do local, olhava para o dia que, apesar de estar um pouco nublado, estava lindo e o tempo foi abrindo a medida que a distância se encurtava. Nem um forte calor eu cheguei a sentir, o que era o meu maior medo.

Passava pela minha cabeça vários questionamentos: como eu poderia estar ali, por qual motivo, como comecei a gostar de corrida, como estava suportando bem aquela “loucura” que muitos me alertaram antes, pois não tenho nenhum histórico esportivo. Pelo contrário, destruí, por conta própria, meu corpo ao longo de vários anos. Engordei muito em um passado recente e estava totalmente sedentária até pouco mais de um ano atrás quando entrei para a musculação. Após malhar de segunda à sexta, caminhava na esteira e, aos poucos, comecei a correr e tomei gosto por aquilo. Fazer atividade física para mim era preciso, mas correr foi simplesmente natural, nada planejado. Nunca me achei capaz para isso até uma grande amiga começar a me chamar para participar de provas de rua.

Enfim, durante minha corrida solitária de hoje (sim, correr é uma atividade solitária, mesmo quando você vai com um amigo ou com uma multidão, no caso mais de 13 mil pessoas) me emocionei três vezes. Enquanto corria, as lágrimas percorriam meu rosto e minha boca sorria. Era um choro de emoção a cada aplauso do público no meio do caminho. Muitas pessoas ficam assistindo, animadas, durante todo o percurso.

Famílias inteiras: crianças, adultos, avós. Alguns ficam na porta de suas casas com mangueiras jogando água na gente. Outros gritam os nomes dos seus times de futebol e palavras de incentivo: “Força, continuem, vamos lá…”. Vários lixeiros, todos uniformizados e enfileirados, nos aplaudiam e tocavam em nossas mãos. Logo eles que devem correm muito mais que os 18 quilômetros por dia durante o trabalho (nada de diversão como o meu caso ali). Não tem como não se emocionar… Nessa hora, parece que cada pessoa da platéia conhece a sua história. Parece que eles se colocam no lugar de todos nós corredores. Afinal, cada um “sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

E quanta história bacana de vida tem ali naqueles quilômetros…

Treze mil pessoas. Treze mil motivos. Cadeirantes, atletas de elite, marinheiros de primeira viagem como eu, ex-sedentários, pessoas que passaram por problemas de saúde e começaram a se conscientizar e a levar a uma vida saudável, velhos, novos, gente fantasiada, pai atleta correndo forte e, ao mesmo tempo, conduzindo a cadeira de rodas de um filho. Até um corredor descalço naquela asfalto quente eu vi. É inacreditável! 

Ao final, eu ainda estava disposta, continuei caminhando normalmente até o carro. Não desmaiei, nem precisei ser carregada, como eu fantasiei várias vezes (rs) e vi isso de perto: um homem saiu de maca e com oxigênio. Enfim, sobrevivi às “pedras do caminho”! Nem eu mesmo acreditei nisso. Minha mãe torcia por mim, mas achava que eu ia voltar no meio do caminho. Eu sabia que ia terminar a prova de qualquer jeito (andando, me arrastando…), só não ia fazer nenhum esforço que comprometesse minha atual saúde física (e realmente não fiz, fui no meu próprio ritmo). Eis que chego com menos de duas horas de prova: viva, inteira e feliz! 

Saí com um desejo de correr a São Silvestre no ano que vem e um aprendizado: a vida dá voltas para quem não tem a vergonha de viver, de ser feliz, de cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz… Eterno Gonzaguinha do percurso de toda a minha vida…


Elissama Assis

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